Rota Vitae | Nuno RibaZ | Arte Contemporânea Portuguesa

Rota Vitae | Nuno RibaZ | Arte Contemporânea Portuguesa

Rota Vitae — A Máquina de Existir no Século XXI

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Nuno RibaZ . é um artista plástico português nascido em Viseu, reconhecido pelo seu trabalho em desenho de elevada complexidade gráfica, particularmente através da utilização da tradicional esferográfica BIC Cristal Azul. Ao longo dos últimos anos tem participado em iniciativas ligadas à promoção da arte e cultura da região de Viseu, colaborando com a revista Animarte e com o universo criativo associado ao GICAV — Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu.



A obra Rota Vitae representa uma das suas composições mais ambiciosas. Desenvolvida numa estrutura equivalente a aproximadamente três metros por dois metros, apresenta uma reflexão visual sobre a sociedade contemporânea, o tempo, a consciência e o peso da existência humana.



À primeira vista, a composição recorda os grandes universos narrativos de Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel, Gustave Doré, M. C. Escher e H. R. Giger. Contudo, a obra não procura imitar nenhum destes artistas. Utiliza referências históricas para construir uma linguagem visual própria, profundamente ligada ao percurso criativo de Nuno RibaZ.

No centro da composição surge um gigantesco ser humanoide que transporta uma casa fechada por correntes. Esta figura representa o indivíduo moderno. O ser humano que procura estabilidade, pertença, amor e significado enquanto atravessa uma sociedade dominada pela velocidade, pela produção e pela constante necessidade de crescimento.



A monumental Torre de Babel simboliza a expansão permanente dos sistemas modernos. Empresas crescem. Cidades crescem. Redes sociais crescem. Expectativas crescem. A Babel de Rota Vitae não procura alcançar os céus. Procura alcançar o próximo objetivo.

Ao seu lado encontra-se uma pirâmide que representa permanência. Enquanto a torre cresce, a pirâmide observa. Enquanto o mundo corre, a pirâmide espera. É uma reflexão sobre o poder, a história e a capacidade que certas estruturas têm de sobreviver às gerações.

Espalhadas pela composição surgem centenas de figuras humanas organizadas em diferentes níveis sociais. Trabalhadores, gestores, supervisores e personagens anónimas participam numa enorme engrenagem coletiva. A crítica social surge acompanhada por uma dose subtil de humor. Os trabalhadores acreditam que sustentam o sistema. Os gestores acreditam que controlam o sistema. O sistema parece continuar a funcionar sem consultar nenhum deles.



A obra explora simultaneamente conceitos associados ao surrealismo contemporâneo, arte simbólica, realismo fantástico, arte visionária e surrealismo tecnológico. A técnica inspirada na esferográfica BIC azul reforça a sensação de proximidade entre o desenho manual tradicional e a reflexão filosófica contemporânea.

Rota Vitae apresenta-se como uma vasta alegoria da condição humana, um universo onde cada elemento existe ligado aos restantes por relações invisíveis, formando uma engrenagem tão antiga quanto a própria civilização. A monumental Torre de Babel cresce indefinidamente em direção ao céu, alimentada pela ambição coletiva e pela crença moderna de que tudo deve crescer para sobreviver. Ao seu lado ergue-se a pirâmide, imóvel e eterna, símbolo do poder, da religião e das estruturas que atravessam gerações sem perder a sua influência. Entre ambas encontra-se a mulher, figura etérea e quase divina, guardiã do tempo e da memória. O relógio que transporta ao peito recorda silenciosamente que tudo aquilo que o Homem constrói acabará inevitavelmente por ser julgado pela passagem dos anos.



No lado oposto da composição elevam-se as torres dos pobres, construídas umas sobre as outras como camadas de sobrevivência acumulada. São cidades erguidas pela necessidade e não pela ambição, monumentos anónimos ao esforço de milhões de vidas. Ao seu lado giram gigantescas rodas movidas pela água, pelo trabalho e pela necessidade de continuar. Giram como os dias, como os meses, como os impostos, como os salários e as contas. Giram como as gerações que substituem gerações sem alterar profundamente a máquina que as sustenta. Tudo parece avançar, mas tudo regressa constantemente ao mesmo ponto, como um mecanismo perfeito de repetição infinita.

No centro caminha o gigante, representação do indivíduo, do eu, do self e simultaneamente de todos os seres humanos. Não é um conquistador nem um derrotado; é apenas alguém que continua a avançar apesar do peso que transporta. Às costas leva uma casa fechada por um cadeado, símbolo do sonho de amor, estabilidade, família e pertença que acompanha tantos durante toda a vida sem nunca ser plenamente alcançado. Ao pescoço transporta um saco de dinheiro, não como sinal de riqueza, mas como representação da busca constante por segurança material. O dinheiro surge aqui como um amuleto moderno, carregado junto ao coração, desejado por todos, alcançado por alguns e suficiente para poucos. Quanto mais peso adquire, mais pesado se torna o caminho.

Presos ao seu corpo encontram-se ainda outros símbolos fundamentais da existência. A bússola representa a procura incessante de direção num mundo sem mapas definitivos. Os dados simbolizam o acaso, a sorte e as variáveis imprevisíveis que alteram destinos inteiros num único instante. A engrenagem representa o trabalho e a integração forçada na máquina social. O cachimbo e o whisky representam os vícios, os prazeres e as pequenas tréguas emocionais encontradas entre as batalhas da vida. Na orelha repousa uma pena de pavão, símbolo da criatividade, da beleza, da arte e da necessidade profundamente humana de criar algo único antes que o tempo apague todas as pegadas.



Presa ao seu pé encontra-se uma pesada esfera de ferro marcada com a inscrição latina Fors Natalis. É o peso do nascimento, da origem e das circunstâncias que ninguém escolhe. A corrente não impede o gigante de caminhar, mas recorda-lhe constantemente que ninguém inicia a viagem a partir do mesmo lugar. Em redor dele movimentam-se milhares de figuras divididas entre trabalhadores, pequenos engravatados e grandes engravatados, representando as hierarquias que se repetem ao longo da história. No final, todos os símbolos convergem para uma única ideia: a vida como um ciclo recursivo infinito. A Babel cresce porque os homens trabalham. Os homens trabalham porque as rodas giram. As rodas giram porque o tempo avança. O tempo avança porque a mulher observa. O gigante caminha porque sonha. E sonha porque ainda não alcançou a casa que transporta. Assim, a roda continua a girar, o rio continua a correr e o caminhante continua a avançar, porque talvez o verdadeiro significado da existência não esteja na chegada, mas na persistência de continuar caminho.

NunoRibaZ Nuno RibaZ Rota Vitae

Para além da sua dimensão estética, Rota Vitae pode ser entendida como uma reflexão sobre o tempo. Os relógios presentes na composição recordam que todas as estruturas humanas existem dentro de uma única realidade inevitável: o tempo que passa.

Existe ainda um aspeto particularmente relevante em Rota Vitae: a relação entre escala física e escala psicológica. Poucas obras conseguem transmitir simultaneamente a sensação de grandiosidade e intimidade. À distância, o observador vê uma civilização inteira em funcionamento. De perto, descobre pequenos gestos humanos, personagens anónimas, objetos quotidianos e fragmentos de histórias pessoais. A obra funciona quase como uma cidade observada a partir de um satélite e, ao mesmo tempo, como um diário íntimo desenhado à mão.

A própria construção técnica da composição reforça esta ideia. Inspirada no universo da esferográfica BIC Cristal Azul, a obra exige uma disciplina visual rara. Cada linha contribui para um conjunto muito maior. Cada detalhe possui significado. Num período histórico dominado pela produção rápida de imagens e pela atenção fragmentada, Nuno RibaZ opta por um processo inverso: desacelerar. O resultado é uma peça que recompensa a observação paciente e convida o público a regressar várias vezes para descobrir elementos que inicialmente passaram despercebidos.



Talvez seja precisamente por isso que Rota Vitae consegue estabelecer uma ligação tão imediata com diferentes tipos de público. Alguns observadores identificam-se com o gigante e com o peso das responsabilidades. Outros reconhecem-se nos trabalhadores que alimentam as engrenagens da cidade. Outros ainda encontram humor nas pequenas caricaturas sociais espalhadas pela composição. No final, a obra sugere que todos ocupamos posições diferentes dentro da mesma narrativa coletiva. Uns sobem a Babel. Uns observam da pirâmide. Uns giram as rodas. Mas todos, sem exceção, caminham sob os mesmos relógios.

Mais informações sobre a vida, obra, exposições e projetos de Nuno RibaZ podem ser consultadas na página dedicada ao artista.


Perguntas Frequentes sobre Nuno RibaZ e Rota Vitae




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